Como foi viajar durante a pandemia

Olá viajante!

Hoje nosso post será um pouco diferente do que estamos acostumados a publicar.  Ao invés de falarmos sobre um destino de viagem, contaremos sobre a nossa experiência de cancelar uma viagem no meio, para voltar para casa durante uma pandemia.

Antes de mais nada, gostaria de reforçar aqui um pedido das autoridades mundiais de saúde: se puder, fique em casa!

Você poderá ouvir também o nosso relato de como foi essa viagem no episódio dessa semana do Viajando na Maionese.

Vocês que nos acompanham sabem que costumamos planejar as nossas viagem com antecedência. E nossa viagem de março de 2020 para os Estados Unidos não foi diferente. Ela estava programada desde setembro do ano passado.

Alguns dias antes da data do embarque fizemos uma análise sobre o surto de Covid-19 no mundo para tomar a decisão de viajar ou não. Naquele momento, com o cenário mundial de expansão da doença e as notícias que a gente tinha acesso, optamos por manter a viagem.

Para entender esse cenário daquele momento, convido você a relembrar comigo a cronologia da expansão do novo coronavírus pelo mundo.

O primeiro caso da doença, ainda sem qualquer destaque nos meios de comunicação, foi divulgado no dia 31 de dezembro de 2019, quando a OMS revelou haver casos de uma pneumonia de origem desconhecida na China. No dia seguinte, em 1º de janeiro de 2020 alguns meios de comunicação divulgaram o fechamento do Mercado Municipal de Wuhan, como local provável de origem da contaminação.

Em 30 de janeiro a OMS declara “surto”, mas não cogita impor restrições de viagens e ao comércio internacional. Durante o mês de fevereiro o que se viu foi um aumento da restrição de circulação de pessoas que estiveram em viagem para a China.

Em 21 de fevereiro a China declara que o surto estava sob controle, mesmo dia em que a Itália anuncia a primeira vítima fatal de Covid-19 no país, Cinco dias depois, em 26 de fevereiro, a França anuncia também a primeira morte pela doença.

No dia 2 de março são confirmamos os primeiros dois caso em Portugal e no dia 3 de março a primeira morte na Espanha. Os países mais afetados naquele momento, quatro dias antes do início de nossa viagem, eram China, Coréia do Sul, Irã e Itália.

No dia 5 de março, véspera do início de nossa viagem, o quadro ainda era praticamente o mesmo, sem nenhum caso confirmado de morte pela doença no Brasil e com o foco voltado para o aumento dos casos na Europa.

Então, diante desse quadro, a gente chegou a conclusão que naquele momento, como o nosso destino não era para um país foco de contágio, nada indicava que deveríamos cancelar nossa viagem. E assim a gente fez!

No dia 6 de maço embarcamos para Nova Iorque, onde fizemos uma conexão para nosso destino final: Los Angeles.

E não foi só a gente que viajou nesse dia para o Estados Unidos. O voo da American Airlines saindo do Rio de Janeiro estava lotado! E tudo dentro da normalidade… Chegamos em Nova Iorque na manhã do dia 7 de março. Mesmo dia aliás em que o presidente americano se encontrou na Flórida com uma comitiva do Governo do Brasil. Um encontro inclusive que dias depois causou muito burburinho não só aqui no Brasil como também nos Estados Unidos.

A nossa imigração no Aeroporto de Nova Iorque aconteceu como sempre, Foi normal. E normal também estava a rotina do aeroporto. Havia gente usando máscara, como sempre tem, quase todos asiáticos. Mas nada anormal, fora do que a gente sempre encontra em nossas viagens. O mesmo cenário observamos quando chegamos no aeroporto de Los Angeles.

No dia 7 a gente foi passear pela cidade e jantamos em um shopping. Como a gente sempre faz quando chega em nossos destinos de viagem, fomos fazer compras de comida para levar para o hotel. No Target encontramos tudo como sempre. A exceção é que reparamos prateleiras com pouco papel higiênico e papel toalha. Mas nada que chamasse muito a nossa atenção. Inclusive chegamos até a comprar álcool em gel em uma CVS da Hollywood Bouledarv alguns dias depois.

No dia 8 de março fomos passear na Disney e a passamos o dia inteiro no “California Adventure”. O parque estava lotado, não vimos ninguém usando máscara, tossindo, espirrando, ou seja, nada que nos alarmasse. Apenas estranhamos não encontrarmos nenhum brasileiro no parque durante todo o dia. Nenhum brasileiro!

Como estava o "California Adventure" no dia 8 de março de 2020
Como estava o “California Adventure” no dia 8 de março de 2020

No dia 9 de março voltamos à Disney. Desta vez para aproveitar a “Disneyland”. E o que encontramos foi o mesmo cenário do dia anterior: parque cheio, tudo dentro da normalidade e desta vez encontramos também dois grupos de brasileiros no parque!

Disneyland lotada na noite do dia 9 de março de 2020
Disneyland lotada na noite do dia 9 de março de 2020

10 de março foi dia de visitar os pontos turísticos de Los Angeles: Holywood Boulevard , a Calçada da Fama e Beverly Hills. Tudo normal. No dia seguinte pegamos a estrada para viajar até San Diego. Chegamos na cidade e não encontramos nada de diferente dos dias anteriores em Los Angeles: tudo aparentada normalidade. Mas o que a TV mostrava não batia com o que a gente via na rua. Nesse mesmo dia 11 a OMS fez a declaração de “Pandemia do Novo Coronavírus”, estado que enfrentamos até o momento em que publicamos esse texto.

Foi nesse mesmo dia 11 de março que os Estados Unidos anunciaram que não iriam permitir a entrada no país de passageiros vindos da Europa. A Europa naquele momento passava a ser o epicentro de Covid-19 no mundo.

Acordamos no dia 12 avaliando nossa situação. Será que era hora de abortar a nossa viagem, cancelar tudo e voltar para o Brasil? Mais uma vez, com base nas informações que a gente tinha no momento e levando em consideração que as autoridades de saúde pública mundiais recomendavam naquele momento, decidimos ficar. E decidimos ficar porque o que os nossos olhos viam era uma vida normal das pessoas…

Naquele momento a OMS recomendava o adiamento de viagens apenas para e Europa e para os países afetados na Ásia. E esse não era o nosso caso. Não era o caso dos Estados Unidos, onde os casos de Covid-19 estavam basicamente restritos ao estado de Washington. E as notícias que a gente recebia do Brasil não batiam com o que a gente via nas ruas dos Estados Unidos.

Aproveitamos o resto do dia para fazer um tour por San Diego: as regiões do Porto, Gaslamp Quartier e Little Italy. E nesse dia 12 de março de 2019, quando voltamos para o hotel e ligamos a TV o assunto do dia era: o Brasil! A notícia: a comitiva do presidente brasileiro, que tinha um caso confirmado de Covid-19 em um de seus integrantes, e a dúvida de que o presidente poderia ter sido infectado com o novo coronavírus … E só se fala disso nas TVs americanas…

Sexta-feira 13 foi dia de ir às compras: foi dia de Outlet! E não vimos nada de anormal na rotina das pessoas O Outlet tinha movimento normal, os restaurantes tinham movimento normal. Nada indicada que havia algo de diferente no ar… E nesse mesmo dia 13 recebemos a notícia de que a American Airlines iria suspender, a partir do dia 19 de março, os voos entre São Paulo e Los Angeles, além do voo para Dallas, também partindo de São Paulo. Embora não fosse a mesma rota de nossa reserva, mesmo assim entrei em contato com a American Airlines para entender essa suspensão e avaliar se havia motivos para antecipar nosso retorno para o Brasil. O nosso receio era de ficar nos Estados Unidos, sem conseguir um voo para voltar para casa.

A informação que a American Airlines nos deu foi a de que a suspensão desses voos era por causa da falta de demanda, já que essas duas rotas eram muito utilizadas para quem voa para a Ásia. E naquele momento (e até o momento em que publicamos esse post) não havia demanda de voos para a Ásia. Então, já que a suspensão dessas rotas tinha a ver com o falta de demanda e não havia nenhuma indicação de alteração dos voos para o Rio de Janeiro, decidimos manter a nossa programação de viagem. Inclusive, a atendente da American Airlines, para nos deixar mais tranquilos (e seguros), garantiu quem mesmo que no futuro houvesse algum cancelamento ou alteração a gente iria receber um contato deles e haveria outras opções de retorno para casa.

Diante disso, a gente resolveu manter os planos. Iríamos continuar em San Diego até o dia seguinte e então no domindo, dia 15, seguir viagem até Las Vegas, nosso próximo destino. Acordamos na manhã de sábado, doa 14, e aproveitamos o dia para passear em Little Italy e Old Town. Dia normal, rotina normal. Você, que acompanha nossas viagens em nossas redes sociais, viu que a gente almoçou em Little Italy e depois, em Old Town, assistimos um show em Fiesta de Reys e fomos jantar no Café Coyote. E que não havia nada de diferente na rotina das pessoas por lá.

Então, no dia 15 de março tudo mudou! Fomos surpreendidos com uma matéria publicada na revista Veja informando que a American Airlines havia anunciado o cancelamento de todos os voos para o Brasil a partir do dia seguinte, segunda-feira, 16 de março de 2020… Imediatamente liguei para a atendimento da American Airlines e enquanto aguardava para ser atendido aproveitei para acessar a nossa reserva pela internet. Não havia nenhuma informação sobre cancelamentos de voos para o Brasil e nossos voos estavam normais, marcamos como previstos.

E enquanto ainda aguardava para ser atendido consultei as opções de alteração de voos disponíveis. E encontrei um voo para o Brasil no dia seguinte. E fiz a alteração… Logo depois de confirmar a alteração de nossos voos me atenderam no telefone. A atendente confirmou que realmente todos os voos para o Brasil estavam suspensos, não a partir do dia 16, mas sim a partir do dia 17 e que nossa alteração estava confirmada.

Então, oficialmente, nossa viagem para os Estados Unidos estava sendo interrompida e no dia seguinte a gente iria voltar para o Brasil!

Como era nossa última noite de hotel em San Diego e a gente já iria pegar a estrada do dia seguinte para Las Vegas, nossas malas já estavam prontas. No dia seguinte fizemos então nosso check-out no hotel e, ao invés de seguir para Las Vegas, pegamos a estrada para Los Angeles, para embarcar no voo do dia seguinte para ao Brasil.

E foi então pela primeira vez na nossa viagem que a gente sentiu o que o clima estava pesado… Na TV, o anúncio do fechamento dos parques da Disney na Califórnia a partir daquele domingo, dia 15. Os bares em Los Angeles a partir do dia 16, funcionamento apenas no sistema de delivery ou no take-away. O prefeito de Los Angeles e o Governador da Califórnia dando declarações sobre a necessidade de conter o avanço do vírus no estado. E onde tudo isso já chegou a gente já sabe…

Na noite anterior a gente tinha ido jantar em um Olive Garden e não vimos nada de anormal. Mas agora, ao almoçar em um Red Lobster nesse domingo, 15 de março de 2020, encontramos um restaurante vazio! Apenas outras duas mesas ocupadas além da nossa. Perguntamos para a garçonete e ela nos disse que nunca tinha visto nada como aquilo e que achava que o restaurante estava vazio por causa do Coronavírus. As pessoas, literalmente da noite para o dia, ficaram em casa

Passamos em um supermercado e encontramos um movimento normal. Porém, as prateleiras dos enlatados vazias. Nada de sopa e de carne em lata. As geladeiras de comida pronta e congelada também estavam praticamente vazias. E o mesmo no setor de limpeza: nada de desinfetantes e de álcool em gel! Estoques zerados…

No dia seguinte acordamos logo cedo fomos devolver o carro e chegamos ao aeroporto para nosso check-in. A realidade que encontramos não foi a mesma da nossa chegada alguns dias antes. Já se percebia um maior uso de máscaras, um ar de preocupação no rosto das pessoas, embora ainda tímido, perto do que enfrentamos nesses pouco mais de 90 dias que de passou desde então.

Nosso check-in e o voo de volta, embora tenham sido tensos, transcorreram dentro do “normal”, diante da incerteza do que estava acontecendo naquele momento e o que nos esperava o futuro.

Ouvimos algumas histórias, conhecemos pessoas, presenciamos situações únicas. E alguns desses relatos você poderá ouvir no podcast dessa semana no Viajando na Maionese.

Chegamos ao Rio de Janeiro na manhã de terça-feira, 17 de março de 2020. E encontramos uma cidade diferente. Sem trânsito, com poucas pessoas nas ruas, um clima de “feriado” na cidade. E não vou dizer que finalmente chegamos em casa, porque a vontade não era essa. Nunca é legal interromper uma viagem. E essa não havia sido a primeira vez que isso acontecia.

Mas o que a gente ainda iria descobrir a partir desse dia 17 de março é a importância do isolamento social para frear a propagação do novo coronavírus. Apesar das lições passadas, que não foram aprendidas por nós, mas que eram bem conhecidas n África Ocidental, principalmente no Congo, Nigéria, Serra Leoa, Guiné e Libéria.

A primeira morte por Covid-19 no Brasil aconteceria na noite desse nosso dia de chegada ao Brasil: um home de São Paulo, de 62 anos, sem histórico de viagens ao exterior…  Hoje se sabe que o novo coronavírus já circulava por terra tupiniquins já em meados de fevereiro.

No começo de abril os números eram de 299 mortes e 7910 casos confirmados por aqui. Os Estados Unidos eram o país com o maior número de casos: 220 mil casos e mais de 5 mil mortes. E por enquanto ainda são os recordistas, no momento da publicação deste post, com o Brasil caminhando para ocupar esse indesejado primeiro lugar.

Nesses três meses que se passaram desde nosso retorno ao Brasil ainda estamos em isolamento. Foram 14 dias iniciais de quarentena, sem nenhum contato com outras pessoas ou com o mundo exterior, sem chegar perto de ninguém, sem nenhum abraço, beijo, aperto de mãos, nem ao menos cumprimentos com cotovelos. Depois dessa quarentena inicial mantivemos a rotina de evitar contatos com outras pessoas, saindo às ruas apenas quanto realmente necessário, para comprar mantimentos, ir à farmácia, enfim, fazendo a nossa parte para evitar a propagação do Covid-19.

Ainda não sabemos como será o futuro, ou o “novo normal”, como está sendo chamado. Temos a certeza que o mundo mudou, as pessoas já criaram novos hábitos. Embora a polarização e o antagonismo ainda persistam, nesse caso ainda sem perspectivas de mudanças.

Aqui no Rio de Janeiro se ensaia uma reabertura, como shoppings funcionando parcialmente e com previsão de reabertura de centros comerciais, galerias e lojas de rua no dia 1º de julho. Na Europa também se esboça um movimento de reabertura do comércio e do turismo, ainda na incerteza de se é ou não o momento certo para isso.

Enquanto o mundo discute a possibilidade de uma “nova onda” de contágio há uma considerável parcela da população que acredita que já passou da hora de se retomar a “vida normal” e voltar ao ritmo da “pré-pandemia”.

Penso que muitas transformações ainda estão por vir. Acredito que ainda não temos controle de absolutamente nada. Que o momento ainda é de aproveitar para pensar no futuro que queremos. E trabalhar para que ele seja melhor do que aquele em que estamos vivendo hoje.

Tudo vai passar, não resta dúvida. E a nós, como humanidade, é preciso aproveitar a oportunidade que temos, com todas as nossas forças, para construirmos um futuro melhor. A hora ainda vai chegar…

Em nossos próximos posts a gente volta a conversar sobre o turismo no mundo pós Covid-19. O que o mercado e as pessoas pensam sobre o futuro do turismo no Brasil e no Mundo? E você, o que pensa sobre isso? Conte pra gente nos comentários…

E até o próximo post, Viajante!

Ficha técnica do episódio:
Música utilizada nesse episódio: "~aether theories~"
by Vidian. 2018 - Licensed under Creative Commons

Hotel que tivemos problema em Los Angeles:
Wingate by Wyndham Los Angeles International Airport LAX

Este post tem 3 comentários

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.